No dia em que se assinala um ano de mandato à frente dos destinos da Federação Portuguesa de Natação, Miguel Arrobas faz o balanço do trabalho desenvolvido e dos desafios futuros. Destaca a maior proximidade com a comunidade aquática, o reforço do apoio a atletas e treinadores, entre muitos outros assuntos. Para ler na íntegra!
- Faz um ano que assumiu, juntamente com a sua equipa, a presidência da Federação Portuguesa de Natação. Que federação encontrou?
- Há um ano, quando tomámos posse, encontrámos uma federação com pontos fortes: uma equipa federativa empenhada e em muitos níveis organizada, um calendário de competições estruturado e diversificado e projetos a que valia a pena dar atenção. No entanto, também encontrámos desafios, particularmente ao nível de alguns processos de organização, o desafio da sustentabilidade financeira da instituição que é, na verdade, uma constante, e da necessidade de reforçar a proximidade com associações territoriais e de classe, clubes e treinadores. O nosso trabalho desde então tem sido consolidar o que já funcionava bem e intervir onde era necessário modernizar ou reestruturar.
- Que balanço faz deste seu primeiro ano de mandato?
- Foi um ano exigente, mas de certa forma gratificante. Conseguimos avançar, mas não concluir, em três eixos essenciais: modernização da instituição, sustentabilidade financeira e reforço do apoio aos atletas e treinadores. Criámos bases para o futuro e melhorámos a capacidade de planeamento. Ainda há muito a fazer, mas considero que temos uma FPN com uma melhor visão das suas competências, dos deveres e obrigações, mas também dos direitos que tem como entidade com utilidade pública desportiva.
- A FPN continua a candidatar-se a organizar várias competições internacionais. Tivemos, por exemplo, o Europeu de DSISO, o Europeu sub-18 de polo aquático, o Europeu e a Taça COMEN de Natação artística, a já histórica Taça do Mundo de Águas Abertas, um Europeu de juniores e Taça da European Aquatics. No início do próximo ano, pela primeira vez, Portugal recebe o Campeonato da Europa feminino de polo aquático. Qual a importância de organizar estes eventos?
- A organização de eventos internacionais é de grande importância para a FPN. Projeta as nossas disciplinas no panorama europeu e mundial, reforça a credibilidade e a capacidade organizativa do país e da própria federação, dos seus colaboradores e de todos os que se atrevem a dar o seu tempo por esta nossa causa comum. Estes eventos devem possibilitar uma aproximação a toda a comunidade aquática de Portugal, aumentando a visibilidade mediática das modalidades e a atração de novos praticantes. Mas ainda mais importante é o que podem produzir ao nível da competição interna e da motivação de atletas e treinadores, gerando ainda um impacto económico muito considerável nas regiões que recebem as provas. Relativamente ao Europeu de polo aquático feminino do próximo ano, no Funchal, é com orgulho que refiro que será o primeiro Europeu de uma modalidade coletiva feminina e olímpica que o nosso país organiza.
- Isto reflete também a excelência da organização de toda a estrutura da FPN?
- Sem dúvida, tal como referi anteriormente. Uma estrutura cada vez mais profissional com a experiência adquirida a estes níveis.
- Prometeu um mandato marcado pelo diálogo e pela proximidade. A verdade é que além da presença em várias competições, tem estado com vários responsáveis de Associações Territoriais para conhecer pessoalmente as suas dificuldades, como sucedeu recentemente com a Associação do Nordeste. Qual será a próxima?
- O meu compromisso aquando da apresentação da candidatura era a de conseguir estar muito perto da comunidade aquática, não só nas competições, nas grandes celebrações de clubes e associações, mas também nas várias áreas territoriais. Pensei numa Presidência aberta. Alterei um pouco a ideia inicial para acomodar melhor calendários e disponibilidades, mas com as mesmas finalidades, a de fazer um diagnóstico a cada um dos territórios, conhecer piscinas, reunir com executivos municipais e territoriais e, se possível, acompanhar um treino de uma qualquer equipa. Os dias 7 e 8 de novembro marcaram o início destas visitas, neste caso, à região do Nordeste (Chaves, Peso da Régua, Vila Real e Bragança), aproveitando uma competição de clubes organizada nesta última cidade. Correu muitíssimo bem graças a uma ajuda preciosa e organização da Direção da Associação do Nordeste. Penso que as próximas poderão ser Leiria, Algarve, Santarém. Sempre indo a reboque de competições organizadas.
- Recentemente a FPN aderiu ao Cartão Branco, iniciativa do IPDJ…
A adesão ao Cartão Branco é um passo muito importante para reforçar a ética e o fair play no desporto. Visa-se a promoção de comportamentos positivos dentro e fora de água, valorizando comportamentos e atitudes dignificantes. É uma ferramenta simples, mas com grande impacto educativo e ao nível de valores.
- Neste primeiro ano de mandato, o que lhe tem dado mais satisfação e o que tem sido mais difícil de gerir?
- Mais satisfação e gozo tem sido claramente ver in loco a evolução das nossas modalidades, dos nossos atletas e estar junto de alguns deles até dentro de água em competição. Ver em muitos casos um trabalho de uma grande equipa com vista ao desenvolvimento das nossas disciplinas. Mais difícil de gerir tem sido provavelmente as expectativas de todos nestas modalidades que amamos. Mas temos feito um grande esforço no sentido de aumentar o diálogo e a participação de todos.
- Olhando para as várias disciplinas dentro da modalidade como está a natação pura, o polo aquático, saltos, adaptada, artística e masters?
- São realidades ainda distintas. Na natação pura assumimos um compromisso claro: reformular profundamente o quadro competitivo, alinhar a formação com o rendimento e gerar um pipeline coerente que comece nos infantis e termine na elite. Não foram apenas ajustes pontuais, foram parte de uma estratégia com impacto duradouro. O objetivo é simples: proporcionar um percurso mais equilibrado, mais justo e mais desafiante para todos os nadadores, garantindo que o talento emerge e se desenvolve num ambiente competitivo saudável e progressivo.
- Passemos às outras disciplinas…
- No polo aquático fizemos uma aposta clara que não se via há muitos anos. 2025 foi já o ano com mais seleções nacionais em atividade da história, dos Sub-14 aos seniores. Relançámos torneios, apoiamos o polo feminino, apostámos na organização de eventos internacionais em vários escalões e criámos parcerias com municípios. Na natação artística recebemos o Europeu e a Taça COMEN, com todos os benefícios que provas dessas podem trazer. Continuámos uma aposta que já vinha da Direção anterior na preparação de atletas de alto rendimento e consolidámos calendários de provas. Temos vindo a incluir clubes e equipas técnicas num projeto comum. Não queremos deixar ninguém para trás. Demos ainda mais dignidade e atenção à natação adaptada, valorizando competições e dando mais oportunidades a todos os atletas. Apostámos no crescimento desta disciplina. Já os masters têm tido um crescimento muito considerável e há que saber como melhor responder a esse mesmo crescimento. Temos trabalhado visando esse objetivo, apoiando competições locais ou regionais e redefinindo alguns critérios. Os saltos para a água são um tema diferente...
- Por que são um tema diferente?
- Num país com infraestruturas inexistentes para esta disciplina cabe-nos apoiar para já a nossa única atleta, pois pouco mais podemos para já fazer. A Luísa Arco vive e treina no Canadá e já nos tem habituado a bons resultados em competições internacionais no escalão júnior. É também com ela que um dia podemos ambicionar algo até porque sabemos da ambição e vontade dela e das hipóteses que lhe poderão ser criadas no futuro para atingir resultados cada vez melhores, agora que inicia a sua atividade no escalão sénior. Ela será a nossa Embaixadora para um possível renascimento da modalidade.
- E quais das disciplinas entende ser necessário impulsionar?
- Diria que aquelas que, ou foram de alguma maneira esquecidas como o polo aquático ou as que sofrem com o reduzido número de clubes e de atletas como a artística. Queremos também impulsionar ainda a natação adaptada pelo importantíssimo papel que pode ter na vida de quem a pratica, divulgando e recrutando mais atletas.
- Na tomada de posse enumerou alguns pilares, como a aposta na formação (treinadores, árbitros…), valorização de clubes e associações, promoção da modalidade desde a iniciação ao alto…
- A formação é algo que muito nos deve preocupar. Precisamos de treinadores cada vez mais habilitados e preparados e precisamos de árbitros que acompanhem a evolução das disciplinas e garantam a competição justa, equitativa e ética. Relativamente às Associações Territoriais e clubes temos apostado numa maior aproximação. É fundamental conhecer os vários territórios, as suas dificuldades, mas também as suas potencialidades.
- Houve um salto qualitativo com alguns nadadores a apresentar resultados de excelência como por exemplo Diogo Ribeiro, Angélica André, Camila Rebelo? Ambiciona ter num futuro próximo mais referências na natação portuguesa?
- Felizmente para a natação portuguesa, há cada vez mais referências ao mais alto nível e outros que nos dão possibilidade de sonhar num futuro próximo. Prefiro, no entanto, focar-me no que foram os resultados positivos e encorajadores de um 2025 que ainda não acabou. Estivemos em 17 competições internacionais, com 72 atletas em representação nacional, 100 medalhas, 30 recordes nacionais em seleções e 119 recordes no total da época. Referir que, além desses nomes, a Francisca Martins foi campeã e vice-campeã do Mundo Universitária, o Diogo Ribeiro e Francisca Martins medalhados nos Sub-23, os excelentes lugares do Diogo e da Camila no último mundial em Singapura, ou a promessa que é o Rodolfo Alecrim depois de duas medalhas no FOJE. Estou otimista sobretudo pela consistência do desempenho em diferentes escalões e contextos competitivos.
- A FPN também apresenta um plano robusto para seleções em 2026. O que está em causa?
- Temos o plano mais completo dos últimos anos, com 40 ações oficiais envolvendo 80 a 100 nadadores. O nosso modelo de ligação entre escalões ficou finalmente claro e funcional, cada nível com critérios definidos, objetivos específicos e competições adequadas ao estágio de desenvolvimento. Este pipeline é a base para consolidarmos futuros olímpicos em Los Angeles 2028 e, além disso, cria um ambiente nacional uniforme e exigente.
- Apesar do que enumerou há ainda muito trabalho a fazer…
- Apesar do progresso que alcançámos, reconhecemos que há áreas onde ainda podemos e devemos evoluir. A primeira passa pela harmonização nacional das condições de treino e de formação. O país tem realidades muito distintas e precisamos de garantir que todos os nadadores, independentemente da região, têm acesso a acompanhamento técnico consistente, competições regulares e estruturas que lhes permitam crescer ao mesmo ritmo. Os novos estágios e a maior articulação entre escalões procuram precisamente reduzir estas assimetrias. Outra área essencial é a transição entre fases de desenvolvimento, sobretudo do escalão de juvenil para o júnior e deste para o rendimento superior. É um momento crítico em qualquer sistema desportivo e queremos oferecer modelos que apoiem a continuidade e evitem que o talento se perca e proporcionem incentivos claros para permanecer no caminho do alto rendimento. Por fim, identifico como prioridade crescente o reforço da monitorização e do acompanhamento individualizado dos atletas. A natação moderna exige dados, métricas e análises permanentes que permitam decisões mais informadas, tanto no treino como na competição. Estamos a investir em processos mais robustos de avaliação técnica e fisiológica, em metodologias que garantam continuidade ao longo dos anos e num acompanhamento mais próximo das equipas técnicas.
- O que tem atualmente a FPN que não tinha, por exemplo, há dez anos?
- Hoje temos um conjunto de condições que nos coloca numa posição muito mais favorável para crescer, aproveitando os resultados alcançados no período da anterior direção da FPN. A primeira grande força é a qualidade e maturidade da geração atual de nadadores, que já demonstrou ser capaz de competir em patamares internacionais de grande exigência, dos atletas já reconhecidos aos mais jovens. A segunda força reside na estruturação progressiva das seleções e do percurso formativo. Hoje existe um fio condutor entre escalões, com critérios claros, objetivos definidos e uma lógica de progressão que acompanha o desenvolvimento do atleta. Outro ponto extremamente relevante é a cultura de exigência e de ambição que se instalou na comunidade da natação. Atletas, treinadores, clubes e Associações Territoriais alinham-se cada vez mais com práticas internacionais no treino, na competição, na preparação física, no controlo do treino ou na rotina pré-competitiva. Vejo uma geração de treinadores mais qualificada, mais ligada ao conhecimento científico e mais atenta às tendências globais.
- Que mensagem deixa para clubes e treinadores?
- A mensagem é simples: estamos a reformar com vocês e para vocês. As mudanças do quadro competitivo, dos TAC’s (Tempos de Acesso aos Campeonatos) e das seleções resultam da análise conjunta com quem treina no terreno. A FPN é reguladora, sim, mas tem de ser também facilitadora, parceira e servidora do desenvolvimento da natação. 2025 marca o início de um ciclo novo que queremos fazer com rigor técnico, transparência e ambição competitiva.
